Discurso de Diego Martínez Lloreda, ganador del Reconcimiento Clemente Manuel Zabala

Foto: Joaquín Sarmiento/FNPI.

Esta é uma noite para agradecer.

Gostaria de começar agradecendo a Susana, minha companheira de todas as horas pelo amor, pela compreensão, pela sabedoria e pela paciência que ela vem tendo comigo durante mais de três décadas que estamos juntos. Ela tem sido o meu alicerce na terra, o farol que sempre me guiou para o melhor porto, e que além disso, me deu o melhor prêmio que já recebi nesta vida: Laura e Juan Diego quem são os meus dois maravilhosos filhos, dos quais eu me sinto tão orgulhoso, porque eles são uma versão melhorada de nós.

Em segundo lugar agradeço a María Elvira Domínguez, diretora e gerente geral do El País, pela confiança que ela me ofereceu para desenvolver a minha tarefa no jornal. Agradeço também o seu carinho, seu sentido comum e a infinita tolerância com a qual ela tem lidado com a minha teimosia sem limites.

Todo meu agradecimento para Rigoberto Prieto, meu professor de espanhol no Gimnasio Moderno, por ter feito com que eu lesse, quando eu apenas estava cursando o ensino médio, essa pequena joia titulada Relatos de un Náufrago.

Obrigado, Gabriel García Márquez, por ter escrito esse livro que marcaria o meu destino. Assim como a maioria das coisas que a gente faz por obrigação, sobretudo quando se é adolescente, eu peguei o livro com   receio e comecei a lê-lo com desdém. Mas aconteceu que, desde as primeiras páginas, essa entrevista milagrosamente conseguiu captar a atenção daquele adolescente rebelde. A história de Luis Alejandro Velasco, o marinheiro que esteve à deriva durante dez dias, após cair do barco da Armada ARC Caldas, me envolveu. O livro, uma compilação de entrevistas que foram publicadas no El Espectador, trouxe à tona uma vergonhosa trama de contrabando na qual vários membros da Armada estavam envolvidos. Trata-se também de uma história vibrante, capaz de captar a atenção, até mesmo da mente dispersa de uma criança no processo de se tornar um homem.

Obrigado, Mestre Gabo, porque quando fechei a página 176 desse livro, conclui que eu queria dedicar minha vida a escrever entrevistas como essas. Após 42 anos de ter terminado essa leitura, ainda não consegui produzir algo moderadamente semelhante, mas continuo tentando.

Obrigado, Gabo, por ter me ensinado a importância estratégica de um bom título, algo que ao longo dos anos que venho me desempenhando como editor tenho tentado transmitir aos meus discípulos. Obrigado por me deixar ver que o título é o gancho para capturar o leitor, a porta que se abre para entrar no mundo sempre imprevisível dos textos. Outra sorte muito diferente teria acontecido com a prolífica obra de García Márquez se ao invés de escrever El Coronel no Tiene Quién le Escriba, tivesse escrito ‘Al coronel no le llega la pensión’; se al invés de Cien años de Soledad tivesse titulado  esse maravilhoso livro com  ‘La zaga de los Buendía’; ou se a Crónica de una Muerte Anunciada tivesse chamado de ‘La decepción de Bayardo San Román’; ou se, finalmente,  tivesse chamado ‘Evocaciones de mis trabajadoras sexuales deprimidas’  para aquele derradeiro   Memorias de mis Putas Tristes.

Obrigado, Mestre Gabo, por ter me ensinado a precisão das palavras, por ter feito eu entender que no nosso espanhol, a cada fato corresponde uma palavra certa. E nenhuma outra.

Mas ao longo do meu já extenso exercício jornalístico, tive outros professores o quais eu também quero agradecer hoje. Antes de mais nada, quero agradecer ao meu pai, Rodolfo Martínez, por inculcar em mim, desde muito jovem, que o sucesso consiste de 1% de talento e 99% de esforço, e a minha mãe, por sempre ter acreditado em mim. Eu não exagero quando digo que em muitos momentos da minha adolescência foi necessário ter muita fé para poder acreditar nas palavras das pessoas.

Agradeço a Rodrigo Lloreda, quem me outorgou o privilégio de ser seu assistente na sua última etapa como Diretor do El País. Eu aprendi muito dele. Hoje quero agradecer a ele pelos dois ensinamentos que são tão simples quanto úteis: o primeiro, é de não brigar com todo mundo ao mesmo tempo. Quando comecei como colunista, com cada escritura eu ganhava um novo inimigo. Como resultado disso, após um tempo eu tinha uma multidão de contraditores e não sabia como lidar com tantas inimizades, o que me impedia de me enfocar e de me aprofundar na denúncia mais importante.

O segundo grande ensinamento que Lloreda me deixou foi o de nunca escrever algo no furor. Quando eu levava algum texto e ele via a paixão e o sentimento com o qual eu o tinha redigido, ele pedia para que eu deixasse o texto de molho durante algumas horas, ao cabo das quais eu poderia apreciar os defeitos que o furor do momento não me deixou ver.

Agradeço a Gerardo Bedoya, o inesquecível editor de opinião que foi assassinado pelo Cartel de Cali, agradeço a ele pelas dezenas de vezes que devolveu-me uma coluna, sob a convicção de que sempre havia uma frase a ser polida ou um dado a ser complementado. De Gerardo, da sua inteligência cáustica me restou, entre muitas outras coisas, uma reflexão inesquecível a qual não posso deixar de compartilhar nesta noite: “Diego, me disse em certa ocasião: você sabe qual é a diferença entre um advogado e um bom jornalista? Ora, a diferença é que o bom jornalista é o que diz mais coisas com menos palavras e o bom advogado é o que diz menos coisas com mais palavras”.

E a Luis Cañón lhe agradeço por ter me ensinado a lidar com as grandes conjunturas informativas que surgem quando menos se espera. Agradeço a ele por ter me transmitido a importância de, nesse momento crítico, ter a serenidade para refletir, reunir-me com toda a equipe da redação, escutar ideias, aprimorar propostas, planejar processos.

Dessas pessoas, eu aprendi a ser cético, a desconfiar de tudo e de todos, especialmente dos poderosos. Eu também aprendi que a verdade é encontrada nos lugares mais inesperados. E que nós, os que exercemos este ofício devemos o que somos, em primeiro lugar, à comunidade que é informada e compreende o mundo através de nós. Obrigado por esses ensinamentos.

Por último, quero agradecer à Fundação Nuevo Periodismo Iberoamericano, ao jurado do prêmio Clemente Manuel Zabala por ter outorgado o prêmio para um Editor Exemplar. Para alguém que tem dedicado toda sua vida ao ofício jornalístico não existe um reconhecimento mais honroso.

No meu caso, interpreto o adjetivo ‘exemplar’ no sentido de que nós editores ensinamos pelo exemplo. Nos 34 anos em que eu estive imerso na batalha jornalística, me ensinaram que para os sempre céticos e críticos repórteres respeitarem ao líder da redação, este líder deve ser um “general de trincheiras”: o editor deve estar envolvido com eles nesse campo de batalha jornalística planejando, dirigindo, corrigindo, disparando, estando na linha de frente da frente de batalha. Arriscando a pele. São nesses momentos, nas mais duras batalhas jornalísticas, quando o editor mais ensina e mais aprende. Só então, após essa batalha juntos, um editor ganha o respeito da redação.

No trabalho diário das redações, o exercício jornalístico é um ensinamento permanente. Todos os dias todos nós aprendemos. Os jovens repórteres aprendem com os veteranos observando como eles trabalham, acompanhando os processos informativos. Na redação do El País eu não sou o mais exemplar, sou apenas o mais veterano, sou aquele que lutou em mais batalhas, aquele que tem mais cicatrizes.

Nesta noite, ocasião em que recebo o reconhecimento de maior honra da minha carreira, não posso deixar de citar uma frase que Rodrigo Lloreda deixou como legado para nós, os que devíamos substitui-lo na trincheira jornalística do jornal no qual ele foi, sem sombra de dúvidas, o grade marechal: El País, mais do que uma empresa, é uma missão. E algo que compreendi após tantos anos liderando equipes jornalísticas é que, precisamente ser editor não é um trabalho, é uma missão.

Muito obrigado.

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