As boas notícias para o jornalismo – Ignacio Escolar

As pessoas que me conhecem, sabem que a melhor característica do meu caráter provavelmente seja o otimismo. É tão marcado que às vezes se transforma em um defeito, porque prefiro sempre ver o copo meio cheio, al invés de meio vazio, em algumas ocasiões nem sequer existe um copo. Mas eu garanto a vocês que compensa, prefiro ser otimista e errar do que declarar a luta perdida.

Neste ofício, o jornalismo e o pessimismo tiveram boa repercussão, e por muitas vezes, isso foi pior do que as próprias derrotas do ofício. Há muitos anos estamos rendidos, diagnosticando a nós mesmos, o fim do jornalismo, morto pela Internet, pelo colapso do papel, pelas redes sociais, morto pelos robôs e pela inteligência artificial, pelas falsas notícias virais, por esses redatores jovens que anotam tudo em seu celular ao invés de utilizar a caderneta.

Sei que hoje, nesta noite, neste espetacular auditório, nesta linda cidade de Medellín, somente restam os otimistas, os que não temem o futuro porque ele depende de nós, os que acreditam que esse futuro do jornalismo pode ser mais brilhante do que seu passado.

Os pessimistas dizem que o jornalismo está em crise, mas nosso trabalho consiste também em não generalizar e se aprofundar nos detalhes.

A função social do jornalismo não está em crise e nunca esteve. Fomos, somos e seremos necessários, porque o nosso trabalho, quando é honesto e rigoroso, é um grande serviço público. O jornalismo serve para despir ao imperador quando ele chega vestido com mentiras.

Tampouco está em crise a demanda de muitos cidadãos pelo bom jornalismo, o que descobre os abusos do poder, da mesma forma como não está em crise o método jornalístico. Sabemos o que é e o que não é uma notícia, sabemos como se investiga, como se comprova a informação e como contá-la aos leitores.

A revolução tecnológica não transformou a essência do nosso trabalho, somente nos deu melhores ferramentas, algoritmos para analisar grandes bases de dados e transformar a informação em conhecimento, caixas criptografadas para proteger melhor nossas fontes e novas formas de conversar com a nossa audiência, a qual hoje também podemos escutar, algo que deveríamos fazer com mais frequência.

O método jornalístico melhorou com a tecnologia, que também nos deu alto-falante muito mais potente e eficiente. A internet é simplesmente melhor do que os canais que tínhamos antes para distribuir a informação. A Internet é mais rápida, tem uma profundeza infinita e é muito mais barata.

É por tudo isso que defendo, apesar dos pessimistas, que o jornalismo não entrou em crise: não em função social, nem no interesse das audiências nem em seu método. A única crise do jornalismo foi a econômica: como pagar o salário dos jornalistas? Não era um tema de pouca importância, porque não existe jornalismo sem jornalistas que se sustentem do seu trabalho.

O colapso dos antigos modelos do negócio do papel não somente afundou a forma de vida de muitos jornalistas, mas também arruinou o coração da imprensa: sua independência editorial, um luxo que somente aqueles meios de comunicação rentáveis podem dar-se.

Quando fundamos o eldiario.es, em 2012, as empresas jornalísticas na Espanha estavam passando por um dos seus piores momentos da história. Centenas de jornalistas perderam seu emprego. A crise econômica ocasionou a falência de muitos meios e demissões massivas naqueles meios que conseguiram sobreviver. Aqueles que se salvaram, conseguiram isso través de salários mais baixos e, o que é pior para o ofício: com o medo impregnado no corpo. Entre tantos, o jornal para o qual eu trabalhava também fechou.

Mas, decidimos não nos render e com as economias de alguns poucos jornalistas e amigos, lançamos o eldiario.es e aproveitamos as vantagens da internet para nos tornar donos da nossa própria redação, onde apostamos pelo jornalismo de qualidade ao invés de utilizar as notícias virais. Pedimos o apoio econômico dos leitores, mas não erguendo um muro que deixasse de fora àqueles que não pudessem pagar, mas sim cobrando deles um jornal que qualquer pessoa poderia ler grátis.

Havia de ser muito otimista para apostar num modelo deste tipo, mas deu certo. Sempre pensamos que havia um copo, e hoje o eldiario.es é um dos meios de comunicação mais lidos e influentes na Espanha, graças, em sua maioria, ao apoio econômico dos leitores.

Justamente no dia seguinte ao qual fui anunciado como vencedor deste prêmio de jornalismo, eu tive que ir à delegacia prestar depoimento como investigado. A ex-presidente de Madri Cristina Cifuentes pede a minha prisão por até cinco anos, onde me acusa, junto com a minha companheira no eldiario.es Raquel Ejerique, do delito de “revelação de segredos”, por publicar que ela tinha ganho um título em uma Universidade pública espanhola.

Quando Cifuentes registrou esta queixa contra nós, há seis meses, ela ainda era a superpoderosa presidenta de Madri. Na tentativa de nos calar ela recorreu ao jurídico pois não tinha outro jeito de nos pressionar. Já com outros jornais ela teria utilizado manobras muito mais sutis e eficientes, tais como falar com o dono do jornal e propor um acordo, ou retirar a publicidade do seu Governo, da qual dependem muitos meios.

Conosco, ela não pode fazer outra coisa mais do que nos levar para a delegacia e nem sequer assim, ela conseguiu nos intimidar. Logo após, ela teve de renunciar porque perdeu o apoio parlamentar, em grande parte devido às consequências das informações do eldiario.es.

Cifuentes não pôde calar-nos porque não teve nenhum dono alheio ao jornalismo com o qual conversar, porque o eldiario.es não tem dono, exceto os jornalistas que trabalham dia após dia na redação, e também pelo fato de sermos economicamente independentes. Porque não dependemos da publicidade institucional dos governos, porque não temos dívidas, porque não nos financiamos com o intercâmbio de favores com o poder, e porque dependemos dos leitores.

Nestes seis anos, atingimos uma audiência mensal de dez milhões de usuários, e convencemos a 34.000 pessoas, os nossos sócios, de que vale a pena pagar por jornalismo independente, que ele os ajuda nas suas vidas, que serve para mudar as coisas. E a melhor notícia de todas é que nós não somos os únicos que estamos conseguindo encontrar nos leitores a resposta para a pergunta mais importante: quem vai pagar pelo jornalismo?

É muito simples. O jornalismo vai ser pago pelos seus leitores.

Em todo o mundo, cada vez mais é maior o número de meios que encontram um futuro graças aos leitores. Novos diários digitais, como o nosso, e também grandes jornais de papel que se reinventam. O crescimento nas suas assinaturas está sendo generalizado na maioria dos meios de qualidade nos Estados Unidos, lá os jornais crescem por mais que a publicidade recue.

Isto está acontecendo em todo o mundo. A publicidade a cada dia se torna menos rentável para pagar o jornalismo, porque a maior parte desse negócio ficou com outros meios como Google e Facebook, e duvido que tais publicidades voltem para o jornalismo com a mesma importância que tinham antes.

A médio prazo, isto vai deixar dois tipos de modelos de negócio para a imprensa na Internet. Haverá jornais digitais que sobrevivam somente da publicidade, e para conseguir isso, terão que gerar muita audiência com o menor custo possível. Com algumas exceções, serão meios sensacionalistas, escravos da difusão viral nas redes sociais e onde o entretenimento prevalecerá sobre a informação relevante.

Mas também, a imprensa de qualidade vai florescer, essa imprensa de excelência que mereceu que o direito à informação e à liberdade de expressão fossem consagrados em todas as constituições democráticas. Alguns poucos seguirão em frente graças às doações, apoiados por fundações que consideram com razão que financiar o jornalismo independente é um bem maior, que não pode deixar somente aos desígnios do mercado, especialmente em alguns países onde esse mercado é tão injusto, ineficiente e interesseiro.

Mas, a maior parte da imprensa escrita e de qualidade estará paga maioritariamente por seus leitores, dependeremos deles mais do que a imprensa jamais dependeu na sua história.

A imprensa toda sempre disse de uma maneira às vezes ostentosa que tudo era graças aos seus leitores, mas sejamos sinceros, nem sempre isso foi assim. Por várias ocasiões, o leitor não era o cliente, mas sim a mercadoria, e o negócio da informação era outro: o das relações públicas, da propaganda e da conspiração de favores com o poder.

Más em um futuro próximo nós vamos dever aos nossos leitores. Entre outras razões, porque não existirá melhores alternativas, somente os meios que conseguirem a confiança, o respeito e o amor dos seus leitores vão crescer e se consolidar no futuro.

O nível de exigência do leitor que paga pelo seu jornal é muito maior, e os leitores não vão pagar por notícias virais, nem por manchetes exageradas que decepcionam logo no primeiro parágrafo, tampouco por notícias falsas ou escritas ao ditado do poder. Tudo isso, infelizmente vai sobreviver, mas a fronteira entre a imprensa de qualidade e a propaganda vai estar cada vez mais nítida.

Os leitores vão pagar pelo bom jornalismo, pelo ideal do jornalismo.

Por isso eu sou tão otimista. Porque o jornalismo de excelência vai se impor, aquele jornalismo que comprova as notícias, que fiscaliza o poder, que coloca a verdade na frente assim como o interesse geral dos seus leitores, o que ratifica e pede desculpas quando erra. Esse vai ser o jornalismo do futuro e não só porque seja moralmente superior à propaganda, o qual é, mas também porque será o nosso único caminho.

Muito obrigada ao conselho reitor e à Fundação Nuevo Periodismo Iberoamericano Gabriel García Márquez por esta grande honra. Espero poder estar à altura da responsabilidade que me foi entregue e ter sempre presente uma das muitas lições que o Gabo nos deixou: que a ética deve sempre acompanhar o jornalismo, assim como o zumbido acompanha o besouro.

Obrigado a minha mãe, Montse, ao meu pai, Arsenio, e a minha esposa, Fátima; todos jornalistas. Obrigado ao meu filho, Íñigo, que por enquanto diz que quando for adulto quer ser inventor e escritor, mas a quem ainda não descarto a hipótese de transmitir a minha paixão por este ofício que é o melhor do mundo. Obrigado aos meus companheiros da redação, porque eles também ganharam este prêmio. Mas acima de tudo, quero agradecer aos sócios e sócias do eldiario.es, o meu sincero agradecimento a esses leitores compromissados, que nos permitem ser livres e olhar para o futuro da imprensa com otimismo.

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