Discurso El Faro, vencedor reconhecimento a excelência

Ir contra a corriente

Queridos amigos:

Muito obrigado por esse reconhecimento. O recebemos com humildade, conscientes das dimensões de um prêmio que nos coloca ao lado de grandes praticantes do ofício e nos obriga, assim, a redobrar esforços para elevar a qualidade do nosso jornalismo.

A Fundação García Márquez nos batizou como “Os incômodos”. O entendemos como uma acusação direta, e a apreciamos. Nos reconhecemos incômodos. Incômodos para o poder. Incômodos para os criminosos. Incômodos para os corruptos. Somos tão incômodos que o somos para nós mesmos. Mas há outra forma de fazer jornalismo que não seja a partir do incômodo? Como pode um jornalista se sentir cômodo, como pode se acomodar se ao seu redor poucas coisas e poucas pessoas parecem estar, funcionar, viver bem?

Para fazer jornalismo é preciso renunciar à comodidade; e gostamos de pensar que é essa renúncia, que fizemos deliberadamente desde o início, a que nos une como equipe, como projeto, e a que explica, em boa medida, por que estamos aqui.

Não poucas vezes essa renúncia significou ir contra à corrente. Nos aventurar na investigação quando ao nosso redor, em plena crise financeira, as redações de grandes jornais do mundo fechavam equipes especializadas e espaços para grandes publicações. Nos aventurar em reportagens extenuantes e na produção de grandes formatos quando a sensatez pedia que nos submetêramos à ditadura do clique. Enquanto outros se entregavam à imagem de impacto, reivindicamos a palavra como o mais apreciado em nossas comunidades. A palavra da vítima, a palavra da testemunha, a palavra da memória. E a palavra do narrador. Falamos muito, escrevemos muito, fotografamos muito, porque é o único que podemos dar aos nossos leitores, ouvintes, espectadores. À nossa comunidade.

Oferecemos a palavra e nossa melhor intenção de entender. Se fomos contra a corrente foi mais impulsionado pela busca jornalística do que por estratégias de mercado. Porque necessitamos tempo, muito tempo, para compreender antes de relatar. E porque necessitamos ainda hoje grandes espaços para dizer tudo o que acreditamos que devemos dizer.

Ir contra a corrente. Fazer jornalismo de fôlego ainda que por ele, nos nossos primeiros anos, os grandes guias do jornalismo na internet nos previram uma morte breve precedida por pulsantes estertores. Num sentido mais literal, esses mesmos desejos foram expressados também por pessoas a quem incomodamos.

Ir contra a corrente significou também dizer o que ninguém quer escutar. Incomodar também nossos leitores. Fazê-lo por acreditar que o jornalismo não se deve ao público, sim aos seus princípios. Que a única maneira que o jornalismo tem para ajudar a sua comunidade é utilizar as ferramentas ao seu alcance para dizer inclusive aquilo que seus membros não querem saber. Nos cabe dizer ao rei que ele está nu. E nos cabe dizê-lo em praça pública, para que todo o povo saiba. Mas também nos cabe dizer ao público que a água que bebe e que bebem por anos está envenenada.

Envenenada por uma história contínua de violência e de injustiça; envenenada pela manipulação política. Pelo senso reacionário e de urgência que produz a região na qual nos coube fazer jornalismo. O chamado triangulo norte da America Central, comporto por El Salvador, Guatemala e Honduras, é hoje a região mais violenta do mundo. É uma região pobre, desigual e corrupta, muito corrupta. Uma região cuja população parece ter pedido as esperanças; uma região que cospe, todos os dias, sua gente pra fora de suas fronteiras, gente que se vai em busca de uma vida minimamente digna e segura que nossos estados são incapazes de oferecer. Indagar sobre as causas dos nossos males, denunciar esses males, expô-los até que nos doa ainda mais do que já nos dói, até fazê-los insustentáveis, significou sempre, também, ir contra a corrente. Não somos os primeiros nem os únicos a fazê-lo.

Desde sempre, o que vai contra a corrente porque considera seu dever fazer o que faz corre o risco de terminar acreditando-se o que não é; de adquirir um complexo de mártir ou de redentor. Esses são dois complexos dos quais não gostamos. Que nos incomodam. Dos quais fugimos. Sabemos que são contrários ao exercício jornalístico. Para evitar tentações nos cabe lembrarmos, a cada dia, o que fazemos, nos auto-avaliar todas as semanas. Praticar a auto-crítica como ferramenta, como método jornalístico, e como fonte de conhecimento também.

Construímos o El Fato mediante a autocrítica constante. Entre todos. Porque não é possível fazer esse trabalho sozinho. Não tal e como nós o entendemos. O El Faro não é um jornal digital, é um projeto jornalístico coletivo, que se nutre dos seus membros e o debate jornalístico na redação nos faz acreditar e nos protege da comodidade e do resto das tentações.

Por isso nos sentimos honrados de sermos o primeiro grupo a receber o Prêmio à Excelência da FNPI. Um premo que compartimos com todos os que, nestes 18 anos contribuíram na construção do El Faro. Com todos os jornalistas, fotógrafos, documentaristas que passaram pela nossa redação. Com todos os que passaram para o outro lado do muro dedicando seus esforços e garantir nossa subsistência e crescimento.

Nos sentimos honrados de receber esse prêmio por acordo de um conselho do qual fazem parte alguns dos nossos grandes mestres e nossos grandes cúmplices. De recebê-lo de uma fundação que sentimos como nossa casa. A Fundação García Márquez nos serviu de sala de aula e salão de festas para o melhor do jornalismo iberoamericano, e é nosso lugar de encontro. Crescemos, também, debaixo do seu generoso guarda-chuva.

É hoje, assim, um dia de festa para El Faro, que estendemos a aquele jornalismo iberoamericano do qual também somos cúmplices e de quem também aprendemos e estamos comprometidos a seguir aprendendo. Obrigado, muito obrigado por esse reconhecimento que nos honra e nos obriga. E nos chama, de imediato, a celebrar. Saúde.

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